Saturday, November 25, 2006

A folha e o vento


"A folhinha e o vento"

Bailam douradas as espigas ao vento
Veio me buscar sempre a seu tempo
Nunca me deixa ir embora
E eu me vou com ele sem demora
Bailam as hastes ao sol a pino
Parece sinfonia ao violino
Vento, vento
Que vem me buscar
Quantas vezes mais
Irei contigo voar!

Grande amor é assim
Nunca parece ter fim
A folhinha de agora
Foi a folhinha de outrora

E vai ela, leve e dançando
Por cima dos pastos
Das casas e dos muros
Vai folhinha companheira
Firme e forte pro futuro

Vento, vento, apaixonado
Fico vendo o seu bailado
Mal-me-quer
Bem-me-quer
Sou do doce a colher
Sou do leite o café

Nos teus braços achegada
No teu corpo emaranhada
Co' as cordas de teu coração
Me mantém bem amarrada

Nosso beijo
É benfazejo
Diz toda criatura alada
Que acompanha a folhinha e o vento
Em suas histórias de espigas douradas

Lembra da época em que via o trem?
Á Deus agradeça e diga amém!
Por ter lhe guardado este amor
Que te preza como ninguém
Qual folhinha voadeira
Que em teu vento vai e vém!


(L.Artèsa)


Friday, November 24, 2006

Palavras, palavras...



Viste!
Depois que muito debatestes...
Cansada estás a ficar
De tanto ter que explicar!
De tanto ter que provar!
De tanto ser interpretada
Posta em dúvida...vasculhada...
Cansada estás...
De dar a quem não merece
De quem não tem coragem
De assumir o que acontece!
Por quê deves se envergonhar?
Se nada fizestes para se desfigurar
Não fostes infiel, não fostes o fel
Não fostes a derrocada
Fostes apenas a parte prejudicada...
Que fizestes afinal?
Fizestes algo na intenção do mal?
Com o vento comprometida
Com o nada amarrada
Fostes égua que passou encilhada
Tsk,tsk, pobre coitada...
Por cavaleiro laçada!
Não sabias dócil eqüina?
Perigoso é saltitar livremente
Em terreno onde dá serpente?
Vai-te agora, sem espora
Não te cause mais dor
Vê se aprende de uma vez
Que não há o tal do amor!
Tudo é jogo de conveniências
De perdas e ganhos
Onde a doçura é a derrota
A ingenuidade é a presa
Num mundo que mentiras arrota
Artimanhas e sapiências
Assim é o reino das aparências!
Vai pro seu lado égua perdida
Esperar de Deus consolação merecida...
Salmoura para o lombo em dor...
Passa-te pela cancela aberta
Ainda te resta o consolo
De saber que sobre o amor
Sempre estivestes certa!!!


"Imprevistos"

Imprevisto
Tudo o que não se quer ver acontecer
O vinho tinto derramado no vestido branco
O jogador predileto machucado no banco
É marcar um gol contra
Perder um pênalti...
Um plano vazado, por revés revelado
Objeto errado no lugar errado
Imprevisto
Perder algo que nunca se esquece
Porque desta vez se esqueceu
Imprevisto
Amar demais sem lembrar
Que podia não se estar sendo amado
Depositar ouro
No refil da prata
É o que mata
O que não podemos controlar
Por mais que tentemos evitar...
Mas o pior de tudo
É ser cobrado
Por quem não viu
Despedaçado
E você fica acabado
Largado
Ao sol torrado
Sem ter nunca
Nenhum mal desejado...

Tuesday, November 14, 2006

De encontros e desencontros e de reencontros

Vazio

Pedaço de mim que foi arrancado
Fez o espírito mutilado
Dói, dói
Como desejo de desenganado
Dói, só dói
Desejo de perecer.
Pedaço de mim separado
Estendido ao chão ensopado
De lágrimas derramado
E de esperanças salpicado
que fim feliz tem para história triste,
E um dia esta terá.
Mas até agora, um muro se ergueu
Tirou-me a luz
Obscureceu
Dói, pedaço
Como se ainda tivesse
Preso ao corpo que tu esqueceu.
Deveras,
Vem o tempo e tudo muda
e o que deixas, sentes falta
Vem o tempo e te esclarece
Nas luz que amanhece
E lembras do caminho
Da estrada para voltar.
Pretensão de amor carnal,
não, não é este banal,
é algo muito maior,
ligação indissolúvel
que Deus firmou 
e na terra estabeleceu.
Teu rosto que antes virava
Hoje baixa a retaguarda
Hoje pensa e decide:
Vamos limpar o passado 
que de nada serve 
Só de estado
Vamos trilhar o futuro
Pois a folha é divina
E canta a pena e a tinta.
Vem chegando o dia 
De lembrar
De viver com aquele corpo
que antes esqueceu.

luisadalartesa©



"Inesquecível"
Não vamos nos esquecer
Porque tem sido inesquecível
E se tornou incabível
Tentar destruir...
Não vamos nos esquecer
Porque passamos por intempéries
Por provas fora de séries
E como árvore milenar
Resistimos
E florimos
Sem chances de terminar...
Não vamos nos esquecer
Porque somos magnéticos
Ainda que éticos
Mas sem razões a prevalecer...
Não vamos nos esquecer
Porque sei tudo o que queres
E dou sem reticências
Sem fingimentos ou aparências
Nos criamos pro nosso prazer...
Não podemos nos esquecer
Porque sabemos com certeza
Que fomos feitos sob medida
Na matemática divina
Na sabedoria elementar
Soma e produto
Número complementar...
Não vamos nos esquecer
Somos areia e mar
Sol e lua
Céus e nuvens
Não dá pra separar...
Não vamos nos esquecer
Porque agora é tarde
Ainda que se vá tentar
Vamos ficar na lembrança
Como as coisas de criança
Que volta e meia
Estamos sempre a recordar...
E em resposta a esta dúvida
Sobra o que já se sabe
Verdade a ressaltar:
Que é sempre uma questão de tempo
Para irmos e voltarmos
Tornando a nos buscar.

luisadalartesa©




"O Amor"

E por mais que me convençam
Os incautos que à mim se dirigem
Do amor nada mais falem
Dele nada mais proseiem
Flamejante retorno da certeza que me vêm
Não digo, pois, que não existe?
Mas que de amor é vero, a poesia persiste!
És o tema preferido
Aos eleitos bem servido
Porém aos meus olhos é permitido
Sabê-lo o quão é fingido
Donde estavas tu, sublime sentimento
Nas vezes em que tentei
Porque em todas elas, seu ingrato
Minhas esperanças despedaçei?
Desce o véu com a doce brisa
Que refrescou o coração de Luísa
Descortinou e cruel mostrou
Que a imperfeição humana
O amor invalida
Não me convençam os bem intencionados
Que o amor é o bem maior de todos os tempos
Eu vi no chão da minha estrada
O amor rapinando tal pássaro agourento
Feliz sou quando estou sózinha
É quando vejo a paz que tinha
E de seguir o amor, me rendendo
É do que muito me arrependo!

luisadalartesa©







"Impressões"
Pensei estar num bistrô em Paris
Meu auto-controle já por um triz
Quase perdido na companhia tua
Terna e acolhedora, que me fez feliz
A chuva fina na cidade, conferiu autenticidade
Pelo céu molhado, de nuvens pesado
A tua pele quente e o beijo esperado
Meu desejo ardente e patente
Um clima de vontades, um cheiro de flor, de sândalo e aniz
Hoje eu tive a impressão... de que estive em Paris
E no passar do tempo que a vida toma, percebi que podíamos incendiar Roma
E sobre todos os destroços, então, nos amaríamos
E sobre a ruína incandescente, não nos queimaríamos
Nossos corpos eram brasas, a que o desejo deu asas
Se farejando, se querendo nas alamedas
Feitos da mesma matéria de que foram as labaredas
Vi hoje no coração da cidade, no Centro que lembrou Paris
Revelações, lágrimas, risadas
Freud e traumas infantis...
Sabor de laranja, aroma de café, tesão contido numa prisão-mulher
Hoje eu vi dois visionários, quase incendiários
Do Centro da cidade que escapou por um triz
Pois quase foi Roma, embora me lembrasse Paris.

luisadalartesa©


"Mal da Humanidade"

Badalem os sinos
Pois quero ouvir
Do alto deste penhasco
Donde penso com asco
Na nata da humanidade
Que a bem da verdade
Vive pra destruir...
Badalem os sinos
Que quero ouvir
Do alto desta planície
Onde lanço a estirpe
Dos homens que querem ruir...
Badalem os sinos
Preciso ouvir
Me corta o vento
As ondas batem
O mar dá aval
E nos respingos
Sinto-me viva
Longe deles
Longe do mal.

(L.Artèsa)



"BAILE DE MÁSCARAS"
No baile das hipócritas exigências

Da sociedade das aparências
Entre os muitos já convidados
Pelo salão espalhados
Veludo negro, tafetá
De máscara ele está
Oculto, disfarçado...
Digo ao te ver circulando
Pelos cantos me espreitando
Sem julgamentos sumários
Noto a virtude escondida
No confuso baile da vida
Onde os cuidados são necessários...

luisadalartesa©


"Vertentes"
Que não se aquiete!Silencie...
A paixão nascida de um poema!
Dança de perfeita sincronia...
Almas em utópica sintonia!
Deixa ser expressão e vida
Toda carência suprida
A mão que o poeta anseia
E que em seu corpo passeia!
Deixe ele águas fluírem
Proporem novo curso
Quizá prevê o futuro
Uma inédita felicidade
Não efêmera
Sucinta
Mas a angústia e toda dúvida extinta!
Que não se aquietem...Os leões no ápice do cio!
Do conhecimento...Do prazer buscado
E ainda não encontrado!
Deixe o poema trazer
Penetrar...Construir...Refazer...
Luzes e palco para o ato primal!
Performance triunfal!
Êxtase corporal, espiritual
Viagem às delícias
De todas as primícias
Ser o dono, o tutor
Anuncie pois o arauto:
Não há razão de temor!!

luisadalartesa©

"Dilema"
Que se faz em hora triste
Quando a adversidade
Sem qualquer piedade
Te aponta em riste?
O que se faz com um dilema?
Eu faço um poema!
Sobre o insano
Ser humano
Ininteligível
Inatingível
Indecifrável...
Vai se entender
O lastimável
Mecanismo do ser...
Seus defeitos
Seus dias de horror
E ainda quando o assunto
Envolve o tal do Amor!
Vai se entender...
Que tantos procuram
Esta grande virtude
E o querem intenso
Puro e verdadeiro
Mas no entanto
Súbito e denso
No momento derradeiro
Quando o encontram
O rejeitam
E nem sequer suspeitam
Que pode ser o último
E o maior de todos eles!
Vai se entender o ser...
Vive por viver
Mata e não quer morrer
Não amo e nem quero
Mais nada espero
Dei pérolas à porcos
Fez-se a fila de mortos
E nada mais há
Que se querer!
Fez assim o ser humano
Inoportuno e profano
Meu coração endurecer...

luisadalartesa©



"Conclusões"

Se reparares
Nossos olhares
Nos pedem
Sem cerimônias
As barreiras cedem
Os receios implodem
Só se pensa na entrega
A faísca da esfrega
Dá fogo de cauterizar
Se percebestes
Nada mais
Então
Importe
Apenas a hora
O nosso momento
Paremos o tempo
Pra ver no que vai dar...

luisadalartesa©


"Temor de homem"
Nada buscava...e um dia cedi....

E agora por fim, compreendi...
Desprezarei os homens em meu coração
Não mais existirão
Seus pensamentos sobre mim são lamentos
As injustiças à mim aferidas são tormentos
A verdade é invisível e não aparece
E a dor de ser condenada, em mim, apenas cresce...
Não saberei mais o que é homem...
Pois meu corpo soube que eles são a dor
São as marcas, os ferimentos
Meus pesadelos, meu horror...
Não há mais como saber o que é o homem...
Aquele à que dou e não recebo
Àquele a que amo, mas me põe medo
Áquele que busco o colo em carinho
E larga meu coração no escuro, sózinho...
Vide porque não cria...não tinha como crer
Pois a cada homem que tive
Minha sensação foi a de morrer.


luisadalartesa©


"Coisas de mulher"

Apure os ouvidos
E ouça sem alaridos
As minhas coisas de mulher
Saiba dos meus segredos
Do silêncio de minh'alma
Saiba tudo o que quer
Não me condene nos erros
Não critique meus desmazelos
Não me olhe com reprovação
Pois é doce meu coração
Apure mais os ouvidos
Distingua de todos os ruídos
O meu som de mulher
É o som que anuncia
Venha o que vier
Disto é feito certas coisas
Como coisas de mulher..."
(L.Artèsa)

"Ânsia de beijos"Os beijos ansiados
A ti serão dados
Por uma boca
Que não mais louca
Buscava de novo beijar...
Os beijos esperados
Um dia realizados
Serão como o sol a pino
E darão a tu'alma o brilho
Do mais precioso ouro fino...

luisadalartesa©


"Primavera"

Chega a estação
Em que tudo floresce...
Não raro nesta época
Nos corações desce
O véu da senhora poesia
Que aquece a alma mais fria
Desejos de paz e de amor reflete
Ainda que haja melancolia...
Prima, vera é a alegria
De saber que nestes dias
A vida em ápice dá o tom
Em pensamentos e fantasias
Pra que vejamos
Na luz que ora resplandece
Que mesmo em nós a vida floresce!
A quem se julga tão desolado
Cores de fúcsias, o verde, o alaranjado
Trazem o inesperado
A certeza de ser amado
Notícias de longe
Um amor que está à frente, ou ao lado
E que nunca se percebeu...
Som de risos, som de riacho
A branca nuvem reluzente
Um pontilhado de gente
Visto do alto da nossa cidade...
Infelicidade
Não é ter o que queremos
E ainda não recebemos...
Felicidade
É se estar vivo
Para buscar o que sabemos
Que por todo anterior sofrimento
Nós, enfim merecemos.

luisadalartesa©